Tenho insistido a respeito do esgotamento de muitos paradigmas e do surgimento de outros com as transformações provocadas pelo alargamento das fronteiras do conhecimento nas últimas décadas, particularmente as duas últimas.
A banalização de novas tecnologias consagra comportamentos, hábitos e costumes dos quais não tínhamos noção há 15 anos. Mas, felizmente, por mais que vicie e condicione, a virtualidade não substitui o saboroso viver "ao vivo". Pode ser até que a solidão urbana institua a cultura de avatares com os quais exercitaremos a sociabilização rotineira. Mas viver a vida real será insubstituível. Mesmo que o screen tenha odores e até sensações táteis, o pleno desfrute dos cincos sentidos seguirá como a expressão máxima da experiência existencial.
Aí, já tendo sido dito e repetido que o maior valor econômico do mundo hoje está na virtualidade (serviços, direitos autorais, games, softwares), identifica-se no Turismo o setor onde a possibilidade de refinamento do processo produtivo ou de geração de valor encontra suas maiores possibilidades.
Hoje é sabido que 3/5 dos dispêndios em Turismo retornam à indústria de transformação, espraiando-se por um leque de mais de cinquenta atividades. Mas o que encanta é a possibilidade de criação de valor de modo sustentável, explorando racionalmente os atributos dos lugares, assegurando-se fluxos de negócio e renda que previnam ou mesmo se conciliem com a sazonalidade da demanda.
E aí entra um conhecimento rudimentar da natureza humana para uma proposta de diferenciação de produto que se transforme em valor de mercado. O ser humano precisa do mínimo de abstração, carece da necessidade fisiológica do lazer e das pausas.
O turismo, exceto nos lugares onde a natureza dispensa maiores motivações além de si mesma, representa a possibilidade de conhecer e desfrutar de lugares e das histórias de que foram palco. Na impossibilidade de rebobinar o tempo para testemunhar eventos ou conhecer personagens, ao menos conhecer os cenários de tais relatos.
No Espírito Santo, onde os sítios históricos não são cultivados com o glamour dos eventos que os consagraram, colecionamos registros históricos que seriam ganchos extremamente oportunos para a promoção de recantos e localidades que podem potencializar grandes atributos turísticos.
Um capítulo da saga colonizadora européia no Brasil foi escrito nas montanhas capixabas. Por que não institucionalizar, com a respectiva identidade arquitetônica, Santa Teresa como referência de nossa cultura italiana e Domingos Martins como o correspondente da presença alemã?
Precisamos desenvolver conceitos de cidades-produtos, que mesclem sinergicamente suas historicidades e paisagens. E daí poderíamos estender o conceito para outros registros que também portamos, como os açorianos, suíços, poloneses, sírios e libaneses, entre os que me ocorrem citar. Institucionalizar, no caso, envolve assumir a identidade histórica e encarná-la no cotidiano como diferencial cultural em relação a outras regiões.
Eustáquio Palhares é especialista em Comunicação Empresarial e apresentador da TV Tribuna





