Com os ventos neoliberais em total calmaria depois da ressaca de setembro do ano passado a idéia pode se parecer uma recarga de uma orientação extemporânea. Até porque o mundo vem promovendo o neokeneysianismo como síntese das experiências econômicas do último século. Mas examinada sem pruridos e preconceitos denota grande consistência. Não é o caso de se discutir o tamanho de um Estado que é um fim em si mesmo cobrando altíssimo à sociedade pelos benefícios que a ela concede como contrapartida dos impostos. Uma carga de 38%, não chega a ser exorbitante para padrões escandinavos, se tivéssemos contrapartida a altura. Se não tivéssemos que colocar os filhos em escolas particulares, contratar planos de saúde privados, reforçar a segurança e sujeitarmo-nos aos congestionamentos produzidos pela nossa estúpida ferramenta de mobilidade urbana que é o automóvel.
Não é o caso, como disse. Trata-se de esgotar as virtudes do capitalismo como modelo de produção em que a eficácia da otimização dos recursos proporciona, de fato, ganhos coletivos. De novo a questão das necessidades gerando oportunidades. As nossas rodovias esburacadas, autênticos matadouros, poderiam alavancar o crescimento econômico pela eficiência dos transportes em rotas modernas com o redesenho de traçados feitos na época de um Brasil ainda rural - e nem falo da opção equivocada pelo rodoviarismo como modal de integração nacional.
Para muito além da produtividade, claro, estariam as vidas que se poupariam com a duplicação das rodovias. Certamente as estatísticas funestas da mortalidade em nossas rodovias se reduziriam em 95% se elas viessem a ser duplicadas. Mais que o senso comum, o bom senso dispensa grandes conhecimentos de engenharia rodoviária para entender que se a maior parte dos acidentes decorre de colisões, essas simplesmente desapareceriam em vias de fluxos distintos de tráfego. É claro que tal idéia requer a garantia do cumprimento de contratos não dando ensejo a personalismos políticos ou transgressões jurídicas em que o político, pelo mero afã de lustrar a sua imagem, passa por cima dos contratos. Falo de contratos justos, onde o investimento tem a sua legitima remuneração garantida e blindada ao voluntarismo dos ocupantes ocasionais do poder. Todos ganhariam com a possibilidade das nossas deficiências. O investimento saudável no saneamento dessas lacunas promoveria a eficiência da logística e, fundamentalmente, pouparia a inevitável e profunda dor que vitima tantas pessoas que pranteiam seus entes queridos mortos em nossas estradas. Rebelar-se contra o pedágio justo alegando que o Governo já recolhe impostos para nos proporcionar condições adequadas de saúde, educação, transporte, segurança e etc é simplesmente ignorar uma realidade que pelo menos na perspectiva de uma geração não se modificará.




