"A distância ideal para se morar, em relação a uma siderúrgica, é a de no mínimo 50 quilômetros", retrucou o japonês da Kawasaki Steel. Era apenas uma constatação prática, sem pruridos ecológicos. A história, como a conhecemos, seguiu seu curso e instalou-se uma siderúrgica - que ao lado de fábricas de celulose e mineradoras são ícones mundiais de poluição - num platô a montante de uma cidade onde sopra predominantemente o vento Nordeste.
Corta para o século XXI, dezembro de 2010, Palácio Anchieta. Um jornalista interpela o venerando Eliezer Batista, a quem se tributa o reconhecimento de um visionarismo indiscutível na percepção do jogo econômico mundial: "O que é mais importante para o Espírito Santo: siderúrgicas, mineradoras ou florestas?
A resposta foi brusca, de tão incisiva: "Florestas, claro, é óbvio, por várias razões econômicas, sendo uma delas a questão ambiental, gerando necessidades e oportunidades de mercado e, complementarmente, as outras finalidades que hoje se identificam para o produto.
E didaticamente o cultuado empreendedor brasileiro começou a enfileirar relação de custos-benefícios e enfatizar o custo-oportunidade dessa escolha. O jornalista, permitindo-se uma irreverência, convidou uma liderança empresarial presente ao evento a se aproximar e repetiu a pergunta a Eliezer Batista. Repetida, pacientemente, a resposta, o jornalista, sardonicamente, ponderou para o ex-presidente da Vale do Rio Doce: "Então o senhor deveria repassar essa orientação para os formuladores da política industrial do Estado, como este senhor, que é uma liderança setorial".
A opção por um modelo de desenvolvimento escorado em indústrias que, com todo o avanço tecnológico, ainda se identificam como sujas, não revela apenas a miopia pela opção por um paradigma obsoleto, que resiste às mudanças que ocorrem no mundo. Isso porque está agarrado a um conceito de crescimento que o cenário imediato, dos próximos anos, já invalidou.
Mas o arrivismo, o senso de que o valor ainda está na concretude e não na virtualidade, somado com um pouco de fisiologismo e mesmo uma leviana despreocupação com a posteridade, seguem escorando essa deplorável postura. É de se perguntar, diretamente, por que acolhermos aqui empreendimentos e atividades que os países do primeiro mundo não aceitam.
Ah, eles querem o semimanufaturado como matéria-prima, de sorte que o primeiro estágio da transformação seja processado nas ex-colônias e a elas degradem? Bem, é uma questão - discutível - de papéis. Cabe-lhes, entendem, preservar o seu lado, seu espaço, sua sociedade, numa visão pequena, menor, de que há lados a defender em um planeta redondo, onde todos estão a bordo. Como no Titanic, de fato não tem por que os privilegiados da primeira classe acharem que a inundação dos porões é problema do pessoal lá de baixo.
Mas a questão ambiental não se prioriza ante a degradação social que testemunhamos nos últimos 30 anos na Grande Vitória. Nosso espaço acaba aqui, mas a gente segue desfiando o assunto na próxima edição.





