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Qui, 11 de Fevereiro de 2010 03:00

As nossas escolhas

Escrito por  Eustáquio Palhares
Naquela época, ambientalismo era uma abstração e consciência ecológica era um devaneio romântico. "Precisamos de empregos para nossos filhos", urravam os progressistas - e oportunistas - de plantão, para quem a fuligem que viria sujar roupas, varandas e pulmões seria um insignificante incômodo que se diluiria no oceano de vantagens que as chaminés simbolizavam.

"A distância ideal para se morar, em relação a uma siderúrgica, é a de no mínimo 50 quilômetros", retrucou o japonês da Kawasaki Steel. Era apenas uma constatação prática, sem pruridos ecológicos. A história, como a conhecemos, seguiu seu curso e instalou-se uma siderúrgica - que ao lado de fábricas de celulose e mineradoras são ícones mundiais de poluição - num platô a montante de uma cidade onde sopra predominantemente o vento Nordeste.

Corta para o século XXI, dezembro de 2010, Palácio Anchieta. Um jornalista interpela o venerando Eliezer Batista, a quem se tributa o reconhecimento de um visionarismo indiscutível na percepção do jogo econômico mundial: "O que é mais importante para o Espírito Santo: siderúrgicas, mineradoras ou florestas?

A resposta foi brusca, de tão incisiva: "Florestas, claro, é óbvio, por várias razões econômicas, sendo uma delas a questão ambiental, gerando necessidades e oportunidades de mercado e, complementarmente, as outras finalidades que hoje se identificam para o produto.

E didaticamente o cultuado empreendedor brasileiro começou a enfileirar relação de custos-benefícios e enfatizar o custo-oportunidade dessa escolha. O jornalista, permitindo-se uma irreverência, convidou uma liderança empresarial presente ao evento a se aproximar e repetiu a pergunta a Eliezer Batista. Repetida, pacientemente, a resposta, o jornalista, sardonicamente, ponderou para o ex-presidente da Vale do Rio Doce: "Então o senhor deveria repassar essa orientação para os formuladores da política industrial do Estado, como este senhor, que é uma liderança setorial".

A opção por um modelo de desenvolvimento escorado em indústrias que, com todo o avanço tecnológico, ainda se identificam como sujas, não revela apenas a miopia pela opção por um paradigma obsoleto, que resiste às mudanças que ocorrem no mundo. Isso porque está agarrado a um conceito de crescimento que o cenário imediato, dos próximos anos, já invalidou.

Mas o arrivismo, o senso de que o valor ainda está na concretude e não na virtualidade, somado com um pouco de fisiologismo e mesmo uma leviana despreocupação com a posteridade, seguem escorando essa deplorável postura. É de se perguntar, diretamente, por que acolhermos aqui empreendimentos e atividades que os países do primeiro mundo não aceitam.

Ah, eles querem o semimanufaturado como matéria-prima, de sorte que o primeiro estágio da transformação seja processado nas ex-colônias e a elas degradem? Bem, é uma questão - discutível - de papéis. Cabe-lhes, entendem, preservar o seu lado, seu espaço, sua sociedade, numa visão pequena, menor, de que há lados a defender em um planeta redondo, onde todos estão a bordo. Como no Titanic, de fato não tem por que os privilegiados da primeira classe acharem que a inundação dos porões é problema do pessoal lá de baixo.

Mas a questão ambiental não se prioriza ante a degradação social que testemunhamos nos últimos 30 anos na Grande Vitória. Nosso espaço acaba aqui, mas a gente segue desfiando o assunto na próxima edição.

Eustáquio Palhares

Eustáquio Palhares

Eustáquio Palhares é especialista em Comunicação Empresarial e apresentador da TV Tribuna.

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