No Brasil, o pessimismo em relação às perspectivas da atividade econômica, em 2009, após a divulgação do PIB de 2008, levou o governo a criar programas emergenciais de apoio a alguns setores e à recuperação da liquidez, deixando parte dos agentes a supor que o pior da crise já passou. Mas como recentemente enfatizou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, no Fórum Empresarial do Líde, "expectativas muito elevadas podem levar a decepções".
Sabe-se que as reações do governo e do Banco Central têm convergido para áreas específicas, como a automobilística (renovação da redução do IPI até o final de junho), imobiliária (pacote de estímulo à construção civil com perspectiva de construção de um milhão de casas) e financeira (ampliação das garantias do Fundo Garantidor de Crédito para a emissão de RDBs, medida voltada para os bancos de menor porte).
Além disso, em mais uma medida de desoneração para estimular as vendas, o governo anunciou a redução do IPI para a chamada "linha branca", que poderá motivar a retomada de vagas perdidas e contratar mais, medida essa que implicará em uma renúncia fiscal de R$ 262 milhões pela União.
Mais uma vez, é interessante verificar que as evidências dos fatos não corroboram a expectativa favorável prevalecente na maior parte dos agentes econômicos. Nos EUA, a inadimplência ainda é alta, os resultados dos balanços das empresas não são favoráveis e uma melhoria na venda de imóveis não é sinal de recuperação, pois os preços continuam em queda vertiginosa.
No que diz respeito aos pacotes de salvação nos EUA e no âmbito do G-20, ainda que em comum privilegiem a liquidez, deterioração das finanças públicas e socialização dos prejuízos, eles vão mais na direção de ganhar tempo numa situação emergencial, mas com previsíveis consequências negativas no futuro próximo.
No Brasil, mesmo com a atividade econômica mantida através de diversas intervenções, o aperto de liquidez resultante da transferência ao exterior de linhas de crédito que grandes empresas se valiam, impacta negativamente na liquidez e no mercado interno de crédito. As perdas sofridas pelos usuários de derivativos cambiais também atuam no sentido de desviar o crédito novo das pequenas e médias empresas, para favorecer os grandes perdedores.
Essas evidências explicam o processo de demissões e perda de salário real, que vão afugentar os consumidores, levando-os a intensificar um processo de poupança compulsiva. Ademais, a inadimplência em alta vai canalizar a renda que seria destinada ao consumo para zerar o crediário, corroborando as nossas expectativas nada favoráveis de um PIB próximo de zero para 2009, e de uma inflação abaixo da meta inflacionária ao final do ano, como efeito da queda dos preços das commodities e da redução do consumo. Além disso, por conta da queda das importações, a projeção da Balança Comercial é de mais de US$ 10 bilhões, o que assegurará uma tênue perda de reservas internacionais, ainda bastante altas, o maior trunfo do Brasil neste momento de crise financeira mundial.
Clóvis Abreu Vieira
é economista e sócio de Vieira e Rosenberg Consultoria.





