Bem, em 1989, veio a queda do Muro de Berlim, desabando sobre a cabeça de toda a esquerda mundial - que nem 24 horas antes suspeitara do desmoronamento fragoroso do sistema -, e o capitalismo restou hegemônico, com suas contradições desfocadas. Acabou a bipolaridade, o socialismo hibernou e o unilateralismo prevaleceu. Na sequência, a globalização estabeleceu novos parâmetros produtivos, os "worlds class", indicadores mundiais que balizam os níveis de produção e preços. A globalização, que já tivera um impulso prévio, não recuou com o questionamento ao neoliberalismo provocado pela crise de 2008. Ao inverso, foi catapultada pelo advento da cultura digital que exterminou os espaços.
Todo produto intelectual passível de ser digitalizado e conectado está no mundo, não conhece fronteiras. Claro que certas transições envolvem a quebra de protocolos da fase analógica. Veja a indústria cultural, incluindo aí os royalties de licenciamento de produtos virtuais ou físicos, como debatem com a pirataria. O caráter meio Robin Hood da pirataria, pelo qual o público D e E acessa bens de consumo aos quais não teria como adquirir pelo valor "legal", acaba por embaçar o aspecto criminoso da prática, numa clara lesão ao direito da propriedade. Mas a verdade é que a pirataria está impondo padrões de eficiência da economia formal, no sentido de ela reduzir seus preços ao nível em que permita o acesso das classes de menor renda.
O Espírito Santo está fazendo uma clara opção pela economia industrial, inclusive baseada em matriz energética de combustível fóssil. Rende-se aos acenos de um crescimento econômico cujos efeitos colaterais e negativos dificilmente serão neutralizados pelas políticas públicas desenvolvidas para esse fim. Nosso modelo industrial segue o conceito de meio século atrás, quando, a título de agregação de valor às nossas commodities, não contabilizávamos as perdas ambientais e, principalmente, a degradação social da qual Feu Rosa, na Serra; São Pedro, em Vitória, e Terra Vermelha, em Vila Velha são emblemas indisfarçáveis. A degradação ambiental é descartada com a promessa de tecnologia competente teoricamente já disponível.
Entretanto, até hoje, 11 anos depois de iniciado o terceiro milênio, as plantas da minha casa, assim como os móveis e outras dependências, exibem a fuligem negra que atesta o blefe da tecnologia. A poluição da Grande Vitória insiste em contrariar as medições oficiais. Não respiramos os índices que os órgãos oficiais apregoam.
Bem, há quem acredite que o progresso é intrisecamente predatório. Então não é progresso, a não ser que ele seja entendido como a apropriação de recursos materiais e geração de valor econômico, que, nem por isso, se traduz em promoção da qualidade de vida. É óbvio que a saturação urbana degradará inexoravelmente a perspectiva da vida nas cidades. Nesse aspecto, as montanhas certamente passarão a ser a alternativa de encontro das condições que se perderam por aqui. Restará, por isso, a marcha para o Oeste.




