A situação até aqui foi pontualmente focada pela mídia, sempre atenta tanto aos modismos comportamentais, quanto à toda sorte de inovações. Mas, talvez por isso, o que foi percebido como uma pauta de ocasião tornou-se uma abordagem rasa, superficial, que não desceu mais a fundo nesse novo quadro. Refiro-me à já flagrante hegemonia feminina que torna avassaladora a presença da mulher em quase todos os campos do mundo do trabalho. Numa América Latina, que só perde para o mundo islâmico o título do primado machista, há nichos de resistência principalmente em funções de chefia, segmentos ainda blindados pelo mito de atributos requeridos que seriam mais encontrados nos homens. Mitos mesmo. Não se trata de fazer apologia do matriarcado, simplesmente. Apenas se constata que os atributos do gênero cada vez mais evidenciam os equipamentos naturais que privilegiam a mulher em relação ao homem. Nem cabe aqui ficar rebobinando o contexto histórico dessa ascensão, desde Betty Friedman nos anos 60, o advento da pílula à inicialmente tímida e depois tsumânica entrada da mulher no mundo do trabalho. E eu diria que foi uma entrada sutilmente avassaladora, porque impercpetível ante o paradigma vigente da superioridade física e da característica racional do mundo masculino, teoricamente, por isso, mas apto a comandar, dirigir, ordenar. Como o artista é, de fato, muitas vezes a antena da raça, Gilberto Gil intuiu/pressentiu isso na sua antológica "Super Homem, a canção".
Mesmo o mito da força física pareceu ruir com os episódios de Lorena Bobbit nos Estados Unidos e da jovem Joyce, aqui. Em ambos os casos e por motivos diferentes, as duas investindo contra o símbolo físico da virilidade, arrancando-o a golpes de facas enquanto seus portadores dormiam. Ou seja, o homem pode afirmar sua superioridade física. Mas ele dorme... e aí estará vulnerável.
Um dia, há 20 anos, constatei na redação de um jornal a presença maciça de mulheres, diria que era um mar de mulheres para algumas ilhas de homens. Questionei-me por que essa predominância, e a série de atributos profissionais apresentados, sem maior ostentação, pelas mulheres - multifocadas, responsáveis, zelosas, comprometidas, leais, solidárias - pareceu justificar tal superioridade numérica. Ao estender a observação para quase todas as áreas, inclusive a faculdade, a situação se replicava. Depois, a constatação de que eram majoritárias como eleitoras, telespectadoras, leitoras. Em 1987, quando do relançamento do jornal "A Tribuna", convidamos uma mulher, Pupa Gatti, para assinar a coluna Paulo Octávio, já atentos a essa ainda despercebida realidade. As mulheres eram raríssimas exceções nessa área que hoje ocupam de modo quase "natural", vide as principais colunas da imprensa local e mesmo as nacionais.
Posteriormente, andando pela Escandinávia, impressionou-me o fato do matriarcado ser uma instituição naqueles países de primeiríssimo mundo, onde existem até manuais para lidar (adestrar?) maridos de acordo com seus temperamentos. Nos Estados Unidos, pesquisas recentes constataram que, no ensino fundamental norte-americano, é flagrante o quanto as meninas têm melhor desempenho do que os meninos. As graduações acadêmicas também são preponderantemente de mulheres, que já ocupam mais da metade dos níveis de chefia no mundo corporativo. Por isso, está em curso o movimento "Os maridos são os novos freios de mão", onde a presença masculina parece estorvar a maior desenvoltura feminina.
Mesmo aqui no Espírito Santo, onde a presença italiana na colonização do Estado é marcante, e dado o caráter matricarcal dessa cultura, onde as mulheres de fato mandam, embora escalassem os homens como provedores, é fácil distinguir que a prosperidade dessas famílias resulta diretamente tanto do trabalho como valor social, quanto da continência às nonas que reinam incontestáveis no âmbito familiar. As próprias estatísticas de criminalidade, onde agressões às mulheres tanto pelo inconformismo de uma separação, quanto pela recusa em aceitar situações propostas por elas estão a exigir uma maior avaliação sociológica. Por ela talvez se permita a institucionalização de uma nova cultura, em que maridos deixem de ser agressores por não aceitarem um novo papel social, por reagirem com violência ao novo papel social em que se tornam fragilizados ante aquelas a quem ancestralmente oprimiram.




