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Seg, 09 de Maio de 2011 21:19

A normalidade que nos mata

Escrito por  Eustáquio Palhares
 Ou seja, o termo equivale a um tipo de esquizofrenia social, em que a avaliação do fato ou comportamento é menos importante do que a constatação de que ele é a prática majoritária. A maioria o exerce. Assim, ante alguma perplexidade pela evidente inadequação, retruca-se: "é normal" ou " é assim mesmo". Com isso, a violência urbana se tornou "normal"; a progressiva imobilidade urbana, idem; a poluição que nos adoece, também; o mesmo se pode dizer da precarização de todos os serviços públicos, teoricamente devidos por um Estado que necessita ser refundado no momento em que se torna um fim em si mesmo. Mas isso também se tornou "normal".

É "normal" o Estado destinar quase a totalidade dos recursos que toma à sociedade para se manter; "normal" também é o servidor público entender que o senso comum o inspira a desatender o público, esse chato que apenas lhe dá trabalho. E assim vamos vivendo, bovinamente, resignadamente, cumprindo a sina de manada. Político corrupto? É normal! Um ritmo de trabalho estressante, com o que as relações se tornam progressivamente superficiais? Normalíssimo! Ou seja, o normal é paradigmático, se consolida como padrão vigente, mesmo que intrinsecamente inconsistente.

Quero usar este espaço para me indispor com uma "normalidade": a rotina das rodovias se tornarem matadouros e governo e sociedade continuarem aceitando isso como normal. Os grandes eixos rodoviários, especificamente os que recortam o Espírito Santo, foram desenhados há 50 anos. Ou seja, quando a frota automotiva correspondia a 5% da atual, e essa é uma referência apenas quantitativa, não estamos falando do salto tecnológico abissal desse período que nos separa dos anos 50.

Depois de três semanas tentando levantar os dados do Dnit sobre o volume de acidentes com morte nas rodovias federais que cortam o Estado, dispenso a contundência das cifras para ater-me à lógica da dedução: alardeia-se que 95% das mortes nas rodovias ocorrem por falha humana, desconsiderando a eventual contribuição das condições dessas vias. Logo, a falha humana é inteiramente previsível. Sabe-se que o homem vai falhar.

Quando se colocam dois fluxos de tráfego em sentidos distintos numa faixa asfáltica de oito metros de largura, claro que está se exponenciando a possibilidade da falha. Pelo recorte antigo das rodovias, depois de 20 minutos engolindo a fuligem de um caminhão, sem ponto de ultrapassagem, o cidadão se exaspera e comete um desatino. Ou apenas segue dirigindo defensivamente, com toda precaução, quando numa curva se depara com dois monstros, um invadindo sua pista confiando no seu porte. Aí, nada a fazer, senão rezar.

A óbvia divisão dos fluxos, ou seja, a disponibilização de vias distintas para cada sentido de tráfego elimina qualquer possibilidade de colisão frontal e certamente - de novo o Dnit ficou devendo esta - essa é a principal causa dos acidentes que matam no Brasil três vezes mais do que a tsumani japonesa. Não falo em duplicação, porque implicaria custos adicionais de dobrar a área onde se assentam as pistas. Rodovias não têm que ser necessariamente duplicadas; tem que obrigatoriamente conter um sentido de tráfego específico. Ou seja, pode-se ir por uma via e voltar por outra não necessariamente contígua, vizinha, paralela. O custo disso? Bem... a estadualização dos trechos federais poderia levar a consórcios empresariais que, no melhor espírito capitalista, teriam como que um cartório de renda permanente, legítima e apreciada pelos tantos que deixariam de morrer.

Eustaquio Palhares é especialista em Comunicação Empresarial e apresentador da TV Tribuna

Eustáquio Palhares

Eustáquio Palhares

Eustáquio Palhares é especialista em Comunicação Empresarial e apresentador da TV Tribuna.

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