É "normal" o Estado destinar quase a totalidade dos recursos que toma à sociedade para se manter; "normal" também é o servidor público entender que o senso comum o inspira a desatender o público, esse chato que apenas lhe dá trabalho. E assim vamos vivendo, bovinamente, resignadamente, cumprindo a sina de manada. Político corrupto? É normal! Um ritmo de trabalho estressante, com o que as relações se tornam progressivamente superficiais? Normalíssimo! Ou seja, o normal é paradigmático, se consolida como padrão vigente, mesmo que intrinsecamente inconsistente.
Quero usar este espaço para me indispor com uma "normalidade": a rotina das rodovias se tornarem matadouros e governo e sociedade continuarem aceitando isso como normal. Os grandes eixos rodoviários, especificamente os que recortam o Espírito Santo, foram desenhados há 50 anos. Ou seja, quando a frota automotiva correspondia a 5% da atual, e essa é uma referência apenas quantitativa, não estamos falando do salto tecnológico abissal desse período que nos separa dos anos 50.
Depois de três semanas tentando levantar os dados do Dnit sobre o volume de acidentes com morte nas rodovias federais que cortam o Estado, dispenso a contundência das cifras para ater-me à lógica da dedução: alardeia-se que 95% das mortes nas rodovias ocorrem por falha humana, desconsiderando a eventual contribuição das condições dessas vias. Logo, a falha humana é inteiramente previsível. Sabe-se que o homem vai falhar.
Quando se colocam dois fluxos de tráfego em sentidos distintos numa faixa asfáltica de oito metros de largura, claro que está se exponenciando a possibilidade da falha. Pelo recorte antigo das rodovias, depois de 20 minutos engolindo a fuligem de um caminhão, sem ponto de ultrapassagem, o cidadão se exaspera e comete um desatino. Ou apenas segue dirigindo defensivamente, com toda precaução, quando numa curva se depara com dois monstros, um invadindo sua pista confiando no seu porte. Aí, nada a fazer, senão rezar.
A óbvia divisão dos fluxos, ou seja, a disponibilização de vias distintas para cada sentido de tráfego elimina qualquer possibilidade de colisão frontal e certamente - de novo o Dnit ficou devendo esta - essa é a principal causa dos acidentes que matam no Brasil três vezes mais do que a tsumani japonesa. Não falo em duplicação, porque implicaria custos adicionais de dobrar a área onde se assentam as pistas. Rodovias não têm que ser necessariamente duplicadas; tem que obrigatoriamente conter um sentido de tráfego específico. Ou seja, pode-se ir por uma via e voltar por outra não necessariamente contígua, vizinha, paralela. O custo disso? Bem... a estadualização dos trechos federais poderia levar a consórcios empresariais que, no melhor espírito capitalista, teriam como que um cartório de renda permanente, legítima e apreciada pelos tantos que deixariam de morrer.
Eustaquio Palhares é especialista em Comunicação Empresarial e apresentador da TV Tribuna




