Sábado, 19 de Maio de 2012
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ES Brasil entrevista governador Paulo Hartung

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‘Eu espero que esse rumo que demos às coisas no Estado seja levado adiante e se possível, se Deus quiser, aperfeiçoado'

No dia 29 de setembro, após a apresentação do orçamento estadual para 2010 e do anúncio oficial, pela segunda vez consecutiva, do maior investimento público já feito pelo Governo do Espírito Santo - R$ 1 bilhão -, a equipe de jornalistas da ES Brasil esteve na residência oficial, na Praia da Costa, conversando com o chefe do Executivo estadual. O governador Paulo Hartung falou de suas expectativas com relação às oportunidades trazidas pela exploração do pré-sal, das conquistas de sua administração e dos desafios que as futuras lideranças terão pela frente.

Num breve balanço de seus sete anos de governo, fez questão de destacar que a organização da máquina pública fez toda a diferença quando o Estado foi atingido pelos efeitos da crise financeira internacional, permitindo que agora os capixabas possam se beneficiar das oportunidades pós-crise. Outro ponto frisado por ele foi a importância dos investimentos na formação profissional dos jovens capixabas. Quanto à política, Hartung afirma que não é hora de se envolver no processo eleitoral e que cabe aos pré-candidatos conquistar a confiança dos eleitores. Se fica ou não no governo, ele só decidirá em março do próximo ano. Confira a seguir.


ES Brasil: Qual o balanço que o senhor faz desses sete anos à frente do Executivo Estadual?
É um balanço positivo, que me dá uma grande satisfação. Nós tomamos posse em 2003 numa situação extremamente delicada que o Estado vivia, muitos anos de problemas, desvios, em alguns casos até uma delinquência político-administrativa. Conseguimos unir o Estado, a sociedade, as forças políticas, as lideranças religiosas e as empresariais do mundo do trabalho e montamos um bom programa - primeiro, para tirar o ES daquela emergência, com salários e fornecedores atrasados, máquina pública completamente sucateada - e, em seguida, quando começamos a melhorar, montamos o 2025, o planejamento de longo curso para o Estado. Então, as conquistas são extraordinárias, muito além do que eu imaginava. Espírito Santo, quem te viu e quem te vê! Mas eu tenho os pés no chão. As vitórias são muitas, mas os desafios também são enormes, porque tem muita coisa para fazer no Estado ainda. Mas eu ouso dizer que se mantivermos esse rumo, vamos longe.

O senhor acredita que Ricardo Ferraço reúne as condições ideais para dar continuidade a esse projeto de governo?
Eu acho que ele está absolutamente preparado porque, primeiro, assumiu a Secretaria da Agricultura e transformou o trabalho na área, tornando o órgão uma secretaria de desenvolvimento do interior e criando um sem-número de programas ali. Depois, ele veio partilhar comigo a experiência de dividir a coordenação de uma equipe de Governo, conhece os programas. Nós criamos um escritório de gerenciamento de projetos igual aos que existem nas multinacionais. Hoje, se você quiser saber como está o projeto do Cais das Artes, como está o Nossa Bolsa, você pode; põe a licitação do Kléber Andrade na rua, começa a obra do Dorio Silva e sabe como elas estão andando. Temos um gerenciamento integral, e isso foi introduzido sob coordenação do Ricardo. Então, ele está preparado. Mas isso não é por decreto, é uma construção. Tem que conquistar as forças políticas, a confiança da sociedade, e ele está se esforçando nessa direção.

A gente tem que acompanhar, ver, nos primeiros meses do ano, até aonde chega, quais são as condições, e é isso que eu estou fazendo. Eu não posso me dedicar a essa tarefa, primeiro, porque não faz sentido; não sou eu o candidato. Há poucos meses fizeram uma pesquisa e mais de 30% dos capixabas queriam espontaneamente votar em mim para o governo, e eu fiquei muito preocupado. Acho que tenho a obrigação de explicar que nas próximas eleições o capixaba vai ter que escolher um outro governador, e comecei a fazer isso. Fui até mal interpretado, confundiram o meu movimento com o movimento do presidente Lula, e é muito diferente. Eu tenho me dedicado exclusivamente ao trabalho administrativo do governo. Isso quer dizer que eu não vou participar do processo eleitoral? Vou, mas no ano que vem. Em abril eu vou ter que tomar uma decisão pessoal, se fico ou saio do governo, e vou tomar essa decisão no decorrer de março.

Um ano após a crise mundial, como avalia os impactos sofridos pela economia capixaba?
Nós precisamos diversificar mais a nossa economia, porque quando o mundo cresce, o Espírito Santo cresce mais do que o Brasil; mas quando o mundo freia, o Espírito Santo freia mais do que o Brasil. O mundo freou, ainda não encontrou o seu caminho solidamente, e isso tem repercussão no Estado. O primeiro trimestre foi dramático, o segundo melhorou um pouquinho - estamos fechando agora os números - mas é uma recuperação, no Brasil e no mundo, que não é espetacular. O país pode crescer 5% no ano que vem, mas é crescimento sobre uma base muito baixa, porque não vamos crescer praticamente nada esse ano. O Espírito Santo deve crescer também, mas nós ainda vamos ter saudades de 2007 e de 2008.

O que eu acho muito relevante diante desse quadro é o seguinte: em 2003, quando tomei posse, a crise era genuinamente capixaba, não era de um país nem do Brasil. Nós unimos o Espírito Santo e demos conta dela. A última crise não é capixaba. Ela foi americana, e depois, contaminou o mundo. E o Governo do Espírito Santo está passando por ela de uma forma absolutamente organizada: contas em dia, pagamentos em dia, investimento! O maior investimento da história do Estado estamos fazendo justamente esse ano, em plena crise. Isso é importante para podermos ser beneficiados pelas oportunidades pós-crise, e já estamos sendo beneficiados. Quando se olha a Weg Motores Elétricos vindo para o Espírito Santo, a Prysmian dobrando a planta industrial, a Vale retomando seu projeto siderúrgico no sul - porto e ferrovia, a ArcelorMittal pensando em fazer produção de bobina de aço a frio, é um olhar para esse Espírito Santo organizado.

O conjunto de projetos que vêm sendo conversados comigo - estaleiro em construção em Aracruz; porto da Petrobras em Ubu; fábrica de fertilizantes, que estamos mais próximos desse objetivo junto ao Governo Federal e à Petrobras - tinha sumido diante da crise. Mas eles reapareceram rápido, e coisa nova, inclusive, que não estava na mesa. Por quê? Porque passamos organizados e somos um Estado com um arranjo institucional bom, com grande capacidade, hoje, de atração de capitais. Isso faz a diferença. Por isso é que sou muito otimista quando olho para o futuro do Espírito Santo.

Mas essa capacidade de investimento do Estado recebeu muitas críticas quando se traduziu no anúncio do orçamento para 2010 com um aumento de 25% nas verbas para emendas dos deputados. O que o senhor pensa disso?
Talvez o Governo não tenha sido bom na comunicação na hora de anunciar. Talvez devesse ter explicado para a população e para os jornais que esse pedido foi feito em 2006, para entrar no orçamento de 2007; depois foi repetido em 2007, para entrar em 2008; e no ano passado, quando estava tudo pronto para atendermos, veio a crise. Aí, eu tive que pedir ao Poder Judiciário, ao Legislativo, ao Ministério Público para recuar, e todo mundo aceitou diminuir orçamento. Os deputados também aceitaram não ser atendidos. Então, eu pude subir o orçamento da Educação, da Saúde, da Segurança Pública. O que nós estamos subindo agora nós já subimos anteriormente em todas as áreas que são prioritárias para o governo.

Por outro lado, a emenda parlamentar no Espírito Santo vem sendo usada em propostas na área de saúde, educação, assistência social, do pequeno agricultor, do cooperativismo, de entidades que prestam serviços importantes, como Apae e assim por diante. Não é emenda do dinheiro do deputado; é emenda com recurso público, para finalidades públicas. Evidentemente que temos que tomar conta disso tudo, e temos feito isso, junto com a Assembleia Legislativa.

Mas temos visto que isso é um ponto frágil, pois ONGs e Oscips têm sido envolvidas em escândalos de desvio de dinheiro público. O senhor não tem receio quanto a isso?
Veja bem, isso foi implantado durante o meu governo e não tem ainda um caso de problema na alocação desses recursos, que têm a fiscalização dos órgãos competentes. Evidentemente que o Estado é zeloso. Nós já aconselhamos parlamentares a que não destinassem verbas a determinadas entidades, e os deputados acabaram agradecidos, depois que viram essas entidades envolvidas em coisas que não são boas.

Agora, não temos que carregar a mão no preconceito, é preciso ter cuidado com isso. A Apae que eu citei aqui, por exemplo, cada recurso que é destinado para uma entidade como essa é muito importante. Quando você olha uma Acacci, Pestalozzi, são trabalhos belíssimos, o recurso que vai para lá faz todo o sentido. Então, não se pode generalizar, porque há um conjunto de entidades que são responsáveis, que têm espírito público e que ajudam efetivamente a encarar problemas e desafios que nós temos. É importante que essas entidades continuem participando, porque o poder público, sozinho, não dá conta de tudo, e temos que ter clareza disso. O que precisamos é ter um critério de acompanhamento e avaliação, porque é dinheiro público, dinheiro sagrado, que precisa ser bem alocado.

O que o senhor pensa do esvaziamento de poder vivido por grandes empresas instaladas no Estado - como Garoto, Aracruz, ArcelorMittal etc. - com o deslocamento de alguns de seus centros de decisão - especialmente compras - para outras capitais? O que isso representa para a economia local?
A localização geográfica quer dizer muito pouco hoje, nesse mundo todo conectado. O nosso governo tem um trabalho específico na área de desenvolvimento para ampliar o conteúdo estadual no fornecimento das grandes e médias empresas que trabalham no Espírito Santo, e temos sido bem-sucedidos.

Evidentemente que essas empresas têm que ter cuidado com esse distanciamento. Eu tenho certeza de que muitos dos problemas que a Aracruz Celulose viveu no Espírito Santo, e ainda vive, têm origem no distanciamento porque, se ficar com cara de enclave, vai ter oposição. Aí não adianta procurar o governador, as lideranças políticas e empresariais, porque depois que o problema está formado não tem jeito de contornar. Eu acho que o exemplo da Aracruz mostra muito isso.

Outra coisa que eu tenho falado é que a conexão da rede de fornecedores locais acaba sendo uma conexão de relacionamento social no Estado. Uma coisa leva à outra. E o Espírito Santo está melhorando a cada dia. Empresas nossas estão entrando em concorrências aí, pelo Brasil afora, sem dedo de ninguém, e ganhando - muitas vezes, de empresas tradicionais. Eu não quero citar nomes porque não quero cometer injustiças, mas tem gente aí fazendo gol de placa, na área da metalmecânica, da construção civil, da prestação de serviços.

Por último, eu tenho sinalizado: vamos aproveitar a mão de obra local. Se uma grande empresa vem para cá e contrata no local, os que estão trabalhando ali com carteira assinada já passam a formar opinião favorável sobre ela. É claro que eu não tenho que ensinar empresário a fazer as coisas nesse mundo. Eu não sou empresário. Eu sou uma liderança da vida pública. Mas eu, modestamente, dou dicas, dou conselhos.

O pré-sal vai exigir um novo patamar da formação e qualificação profissional, com atividades muito específicas e sofisticadas, em várias áreas - algumas, inclusive, totalmente novas. Já existe uma preocupação em usar esses recursos do petróleo para preparar os capixabas para essas formações tão específicas?
Nesse caso, o Estado não vai fazer, já está fazendo, e com esse recurso mesmo. Hoje os movimentos empresariais nos apresentam a demanda de mão de obra para os próximos anos e nós vamos ao mercado comprar essas vagas nas escolas privadas. Nós pagamos a formação desses jovens e pedimos, como contrapartida, que as empresas lhes deem o primeiro emprego ou estágio.

Dos três programas que mantemos com o dinheiro dos royalties é na política de formação e capacitação de recursos humanos que está sendo aplicada a maior parcela de recursos. Hoje, o Estado tem o orgulho de dizer que já financia mais formação de mestres e doutores do que o Governo Federal; são quatro ou cinco estados que fazem isso, e nós, que há pouco tempo não fazíamos nada, hoje fazemos.

Creio que não vamos ter dificuldades com essa formação porque as coisas levam um tempo, também. A produção do pré-sal não é para amanhã. Então, vem a demanda de mão de obra, e nós vamos formando. Já tem muito capixabinha trabalhando na cadeia do petróleo e gás e vai aumentar, com a política de atrair atividades que agreguem valor, como a planta de fertilizantes e as termelétricas a gás, que vão nesse sentido.

É claro que precisa mudar mais, mas conseguimos muita coisa, e uma das mais importantes, além da ampliação da Ufes no interior, foi trazer para cá esse sem-número de escolas técnicas federais. Hoje temos Ifes em S. Mateus, Colatina, Nova Venécia, Linhares, Aracruz. Na Grande Vitória, trouxemos uma para Vila Velha, uma para Cariacica e estamos implantando uma em Guarapari. Piúma vai ter a sua, Cachoeiro de Itapemirim ampliou, com novos laboratórios, em Ibatiba e em Venda Nova do Imigrante outras estão sendo construídas. E a nossa bancada está lutando, com meu apoio, para termos uma em Santa Maria de Jetibá, focada mais no agronegócio. Isso é uma conquista extraordinária, que vai dar frutos pelos próximos 50, 60, 100 anos.

O que o senhor, como administrador do Estado, espera do pré-sal? Na reunião em Brasília, o presidente Lula disse que apresentaria apenas um projeto, mas acabou apresentando quatro. Qual sua visão sobre isso?
Existe um marco regulatório em vigência há mais de dez anos, feito pelo presidente Fernando Henrique, que é um sucesso: a Petrobras se fortaleceu sob esse marco e as próprias novas descobertas levaram ao pré-sal. O motivo para aperfeiçoá-lo, ou colocar um outro que funcione paralelo a esse, como propõe o presidente Lula, é que a descoberta do pré-sal diminuiu muito o risco exploratório. Antigamente tinha-se que perfurar doze vezes para achar petróleo em uma. Hoje, perfuraram sete vezes aqui no litoral do Estado e nas sete encontraram óleo - 100% de aproveitamento! A diminuição do risco tem que levar os governos - federal, estaduais, municipais - a terem uma participação maior na renda do petróleo, e esse é justamente um dos motivos do debate que se iniciou no país.

Agora, tem que ter muita cautela nessa mudança. O marco atual é muito transparente, tem muito prestígio a nível internacional e eu acho bom que o novo não diminua esses ganhos de credibilidade, porque o Brasil não tem dinheiro para explorar sozinho o petróleo do pré-sal. Temos que atrair capitais, então, é preciso manter a transparência, ter competitividade e atratividade, porque não é só aqui que tem petróleo. Uma regra fora do padrão internacional vai fazer com que esse capital migre para outro lugar.

O pré-sal gera oportunidades enormes para o Espírito Santo, e eu estou defendendo que essa riqueza seja partilhada com o país, mas que se dê um tratamento diferenciado aos estados e municípios produtores - acho que, devagarzinho, está havendo uma compreensão do Brasil em relação a isso. No início das discussões, fizeram duas coisas ruins. Primeiro, tentaram fazer um cabo de guerra entre os três estados produtores e os 24 não-produtores, colocando a gente em desvantagem nessa discussão. Segundo, tentaram olhar para o ES e enxergar São Paulo. Nós não somos São Paulo. O Espírito Santo foi preterido da mesa do desenvolvimento do país durante décadas. Essa é uma oportunidade e o Brasil não pode privar o Espírito Santo dessa oportunidade de se desenvolver, de diversificar a sua base econômica. Nós precisamos muito fazer isso, como eu já falei.

Mas eu acho que estamos indo bem; acho que aquela primeira batalha lá na madrugada, com o presidente Lula, nós ganhamos, mas não ganhamos a guerra. A guerra é com o Congresso, é mais difícil, inclusive. E eu tenho conversado com os parlamentares, com os relatores, com a nossa bancada, estou mandando uma carta agora para os relatores, com o nosso posicionamento, tenho conversado muito e trabalhado muito para que a gente ganhe a guerra.

Para finalizar, qual o segredo de ter bons resultados num ano em que se falou todo o tempo em queda da arrecadação e o Estado chega ao quarto trimestre aumentando o orçamento para 2010?
Quando nós vimos o estouro da bolha imobiliária norte-americana, ainda no final de 2007, acendemos um sinal amarelo e começamos a economizar dinheiro. Esse recurso foi fundamental para termos o volume de investimento que estamos tendo em 2009. Eu aprendi com meu saudoso pai que nunca se deve gastar o que se tem, e levei isso para o setor público. Aprendi também que sempre precisamos ter uma reserva, porque a vida é feita de momentos bons e de momentos desafiadores, para os quais você precisa estar prevenido, ter uma poupança. Assim, desde que cheguei ao Governo do Estado, repetindo o que fiz na prefeitura, todo ano temos um pequeno superávit. E eu acho que o futuro governador, se quiser me ouvir, deve seguir esse roteiro. Quem vive no limite vive fora do que pode. Tem que viver um pouquinho abaixo do limite, porque sempre tem uma eventualidade na vida. O Espírito Santo, hoje, é exemplo para o Brasil. Eu recebi o ranking da Caixa Econômica Federal apontando o Espírito Santo como o Estado com melhor posição fiscal do Brasil. Em 2003, nossa posição era a segunda pior do Brasil. Isso diz tudo, e eu espero que esse rumo que demos às coisas no Estado seja levado adiante e se possível, se Deus quiser, aperfeiçoado.