É com essa proposta que a caminhada "Os Passos de Anchieta" traz todos os anos milhares de andarilhos Anchieta para percorrer o trajeto que revive o caminho histórico trilhado pelo Padre José de Anchieta em seus últimos anos de vida. O ponto de partida do roteiro é Vitória, capital capixaba, e o destino final é Anchieta, no litoral Sul do estado. Depois de uma missa na Catedral Metropolitana - uma construção gótica com belos vitrais trazidos da França -, os andarilhos saem da capital com destino a Anchieta.
Durante os quatro dias que duram o percurso, eles margeiam o litoral capixaba e desfrutam um cenário de belíssimas paisagens e muita riqueza histórica. A beleza singular do litoral é motivo mais do que suficiente para convencer até mesmo quem não é religioso a ingressar nessa aventura, que atrai andarilhos e peregrinos de diversas partes do Brasil e do mundo.
Quem participa da trilha revela satisfação com os momentos únicos de reflexão que o trajeto naturalmente provoca. Em um mesmo percurso, "Os Passos de Anchieta" permite que os andarilhos experimentem diferentes sensações e paisagens, passando pelo litoral, pelo centro urbano, por um trecho rural e, ainda, pela montanha.
Beatificação
O precursor dessa grande caminhada, o Padre José de Anchieta, nasceu em março de 1534, em San Cristóvão de La Laguna, na Espanha. Filho de uma rica e proeminente família entrou para a ordem dos jesuítas em 1551, com apenas 17 anos de idade. Em 1553, veio como missionário para o Brasil, onde ficou conhecido como Apóstolo Nacional Brasileiro, tornando-se co-fundador das cidades de São Paulo e São Sebastião do Rio de Janeiro.
Aos 20 anos, mudou-se para o Espírito Santo e se instalou na antiga cidade de Rerigtiba, hoje a atual Anchieta. No estado capixaba, desenvolveu diversos trabalhos junto à população indígena. Veio a falecer em junho de 1597, em Anchieta. Em seus últimos anos de vida percorria habitualmente a pé o trecho entre Rerigtiba e Vitória. Nesse percurso se encontram os registros de feitos extraordinários que lhe conferem uma dimensão mítica. Em 22 de junho de 1980, o padre José de Anchieta foi beatificado pelo Papa João Paulo II.
Roteiro da fé
O roteiro foi resgatado em 1998 e, desde então, consolida-se como uma rota perene, podendo ser percorrida e conhecida em qualquer época do ano. O caminho de 100 quilômetros era uma prática andarilha dos colonizadores do século XVI que utilizavam as praias devido à falta de trilhas na vegetação cerrada que cobria o território. Durante "Os Passos de Anchieta", o percurso é realizado em quatro dias. No primeiro, os andarilhos saem de Vitória e seguem até a Barra do Jucu, em Vila Velha, em um trajeto de cerca de 25 km.
No segundo, eles percorrem 28 km, da Barra do Jucu até Setiba, em Guarapari. No terceiro dia são trilhados 24 km, num percurso que vai de Setiba até Meaípe, ainda em Guarapari. No último dia, os 23 km finais compreendem uma trilha entre Meaípe e Anchieta, onde a parada final é a Igreja Matriz do município. Ao longo do percurso, os participantes contam com uma programação cultural repleta de música, dança e atrativos locais. Esses momentos de confraternização permitem que os peregrinos compartilhem a experiência com os demais andarilhos e firmem novas amizades.
Belezas naturais
O caminho revela riquezas e belezas indispensáveis para inspirar os andarilhos durante todo o trajeto. No ponto de partida, a Catedral Metropolitana de Vitória, uma missa oferece as bênçãos necessárias aos peregrinos. De lá, eles passam pelo Convento da Penha, no município de Vila Velha, um dos monastérios mais antigos do Brasil, datado do século XVI, onde é possível contemplar algumas das maravilhosas paisagens que a caminhada reserva, além de pedir as bênçãos a Nossa Senhora da Penha, padroeira do Estado.
Seguindo pelas ruas de Vila Velha, o andarilho chega ao Morro do Moreno, perene guardião da entrada da Baia de Vitória, de onde se descortina toda a beleza desta entrada. Depois alcançam uma das praias mais charmosas do país, a Praia da Costa, que se emenda com a Praia de Itapoã e a Praia de Itaparica. Em seguida, rumam para a Barra do Jucu, celebrizada nacionalmente por ser berço de "Madalena", a música que Martinho da Vila levou para todo Brasil. A riqueza cultural da Barra do Jucu ganha ainda mais expressividade se admirada em contraste com o conjunto de belezas naturais existentes no local.
Enquanto a natureza mostra sua sincronia, promovendo um encontro entre mar e rio, revelando as nuances das montanhas e a grandiosidade das reservas ecológicas, as ruelas ganham vida com o som dos tambores e das casacas. São as Bandas de Congo, que eternizam um ritmo inédito, herdado dos índios e negros, característico da cultura popular capixaba. Os grupos dão vida à cidade, alegram os carnavais e encantam os visitantes. Na praça da Barra do Jucu o andarilho fecha o primeiro dia de caminhada e se prepara para a seqüência da jornada que cada vez vai lhe exigir mais.
O segundo dia cobre o trecho entre Barra do Jucu e Setiba. A caminhada reserva o descortinamento de um cenário singular, ao levar os peregrinos a passarem pela aprazível Ponta da Fruta, em Vila Velha, onde o silêncio e bucolismo proporcionam aos participantes uma boa oportunidade para reflexão. A experiência torna-se ainda mais agradável com a passagem pela reserva ecológica Paulo César Vinha.
A intensidade do seu verde, em contraste com o mar a poucos metros de distância e com o azul do céu transmitem serenidade à caminhada. Com essas cores na retina, o andarilho encontra outro ponto atraente no caminho: a lagoa da Coca Cola, de coloração escura, que originou o nome, produzida pela liberação das tinturas das raízes das árvores aquáticas, a Lagoa contrasta com o mar azul que fica a poucos metros de distância. Rodeada de pedras e vegetações exóticas, a lagoa é uma tentação a uma parada estratégica para tirar das mochilas e máquinas fotográficas e dar um mergulho.
Alguns passos adiante, os andarilhos deparam-se com a Praia de Setiba e a calmaria de suas águas, um convite para um mergulho para encerrar a jornada do dia. O terceiro dia Ao acordar na manhã seguinte, o andarilho sai de Setiba e margeia a belíssima enseada que enlaça as praias de Setiba, Santa Mônica e Perocão, chegando à paradisíaca Três Praias, um lindo colar de praias que se constitui em um dos locais mais bonitos do litoral capixaba. Logo à frente atravessa o sofisticado condomínio residencial da Aldeia e chega à Praia da Cerca encostada à Praia do Morro, a grande praia de Guarapari. Depois de percorrê-la, margeando-a, o andarilho cruza a ponte de acesso à sede do município, passa por um poço jesuíta do século XVI, galga uma ladeira em cujo topo encontra-se a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, do tempo do padre, e as ruínas de uma igreja do século XVII. Dali ele percorre a orla da cidade até chegar a Meaípe, passando também por outro sítio formoso que é a Enseada Azul.
Em Meaípe, point da vida noturna de Guarapari, o andarilho conclui o terceiro dia dos Passos de Anchieta. Último dia Depois de viver momentos intensos, os andarilhos chegam ao último dia da jornada rumo à Anchieta. Logo após passar pela localidade de Mãe-Bá, com uma bela lagoa, os peregrinos chegam às vilas de Ubu - onde ocorreu o episódio que deu nome ao lugar, envolvendo o padre Anchieta. Ao transportar o seu caixão, passando no lugar, os guerreiros que o carregavam deixaram o esquife cair, ao que comentaram Aba Ubu! Abá! Ubú! ("O santo caiu! O santo caiu").
Encostada em Ubu fica a bela Vila de Parati. Com poucas passadas, o andarilho chega à praia de Guanabara, Castelhanos e Boca de Baleia, chegando à praia do município de Anchieta. Ao vencê-la em quase toda a sua extensão alcança o seu destino, a ladeira da Matriz da Igreja Nossa Senhora da Assunção, em Anchieta. E aí experimenta um momento particularmente emocionante. Depois de quatro dias pelas trilhas, a chegada ao município de Anchieta - a última morada do beato -, onde os andarilhos são recebidos com festa, é um momento de êxtase, que só quem já viveu pode descrever.
O grande prêmio da caminhada é a visão da escadaria que leva ao santuário de Anchieta, uma construção jesuítica de 1597, erguida pelo beato em seu último ano de vida com a ajuda dos índios tupis. Nessa hora, os participantes compartilham não só a refeição de boas-vindas, mas também toda uma história de solidariedade, superação de obstáculos físicos, companheirismo e satisfação. Depois de concluído o caminho, com certeza todos levarão na bagagem algo em comum: a vontade de voltar no próximo ano.
Estrutura Para realizar em segurança e com saúde todo o percurso, a Associação Brasileira dos Amigos dos Passos de Anchieta (Abapa), Ong que organiza o evento e cuida da rota, prepara pontos de apoio ao longo do trajeto, chamados de "oásis". Neles, os andarilhos recebem água, frutas e medicação para câimbras, bolhas e torções que possivelmente surjam nos participantes. Há também ambulâncias em alerta para o caso da necessidade de remoção de algum peregrino. Além disso, carros de apoio da organização ficam à disposição dos andarilhos para qualquer eventualidade.
Ao longo da rota, os participantes devem carimbar as credenciais nos pontos de apoio dos Passos para que possam receber o certificado de participação pela caminhada. É preciso ter pelo menos metade dos 16 carimbos para comprovar que o trajeto foi cumprido.
Inscrições
Os interessados em participar da caminhada oficial dos Passos de Anchieta podem realizar a inscrição pelos telefones (27) 3227-2661, 3244-2323 e 9706-7001; pelo site www.abapa.org.br e na sede da Abapa, localizada na Rua Padre Antônio Ribeiro Pinto, nº 195, sala 1004, Edifício Guizzardi Center, Praia do Suá, Vitória. O valor da inscrição é R$ 35. Ao fazer a inscrição, o andarilho recebe um kit contendo um manual, uma credencial, que deve ser carimbada em pontos estratégicos do caminho, e informações a respeito do percurso e relativas à alimentação e hospedagem.
Informações: Abapa - Carlos Magno de Queiroz (Lilico) - (27) 3244-2323//9706-7001 Iá! Comunicação - Mariana Guedes - (27) 3314-5909//9763-8856




