Tanto é assim que as previsões do Gartner Group, uma das mais respeitadas consultorias do setor, divulgadas na 6ª Conferência Anual Gartner Outsourcing, realizada em 15 e 16 de julho em São Paulo, projetam crescimento de 6% nos gastos com outsourcing de TI na América Latina em 2009 - devendo alcançar a cifra de US$ 8,4 bilhões. A expectativa contrapõe, inclusive, os dados globais, que indicam gastos de US$ 268,1 bilhões nos orçamentos das empresas para contratação de serviços de TI, incluindo BPO (Business Process Outsourcing) - queda de 4,3% sobre 2008.
Embora o valor monetário em dólar de gastos com serviços deva cair cerca de 15% na América Latina, a redução reflete a desvalorização da moeda norte-americana em relação às moedas locais. Levando-se em conta o real e os pesos mexicano e argentino, o aumento nos gastos confirma o maior volume de serviços contratados em 2009 na região, afirma o estudo do Gartner, que aponta para um crescimento ainda maior para o mercado brasileiro de outsourcing de TI neste ano - entre 10% e 12% - se considerado apenas o real, moeda mais forte dessa cesta.
A pesquisa, realizada em 30 países latino-americanos, incluindo o Brasil, considera os orçamentos de TI das empresas, e não as receitas dos fornecedores de serviços, e revela que o outsourcing de redes é o que apresenta maior crescimento, com previsão de aumento de 8,5% na região. Há projeção também de aumentos de 5,4% e 5,3% nos gastos com outsourcing de desktops e data centers, respectivamente, e crescimento de 5,2% e 5% para os serviços de BPO e outsourcing de aplicações.
Crescimento acima de 21% em 2013
Na avaliação do Gartner Group, o mercado mundial de outsourcing de TI movimentará em 2013 cerca de US$ 324,9 bilhões - aumento de 21,18% na comparação com este ano. Na América Latina, o montante tende a saltar para US$ 13,9 bilhões em 2013, registrando um crescimento médio composto anual de 8,2%
Números exatos para o Espírito Santo não estão disponíveis, mas é fato que também em terras capixabas o outsourcing em TIC é um mercado aquecido - basta conversar com quem é do ramo para perceber.
"No Espírito Santo, a indústria tem forte demanda em outsourcing de TI. São companhias que precisam de soluções especializadas, escalabilidade (aumentar e diminuir a demanda pelo serviço, de acordo com o mercado) e assertividade no controle de custos", afirma Luiz Eduardo Alvarenga, diretor de Negócios da SLE Precisão e Simplicidade, empresa que atua no ramo de outsourcing de TI desde 1997.
"Organizações com matriz e várias filiais ou coligadas são as que mais recorrem a este modelo de operação, porque as vantagens são enormes. Não há necessidade de investir em infra-estrutura ou de pessoal especializado nas pontas, o que permite ao cliente focar seus investimentos em pessoal diretamente no próprio negocio", complementa Eduardo Couto, diretor executivo da Unidade Totvs Espírito Santo, outra empresa com larga experiência na área.
Ajustando o foco
Quando se fala em estratégia de negócios, o outsourcing das áreas de tecnologia transforma-se numa ferramenta inigualável para aumentar, simultaneamente, produtividade e rentabilidade e proporcionar maior vantagem competitiva, já que libera inteligência e tempo para que as empresas contratantes possam focar em seu core business.
A resistência inicial ao outsourcing em TI, por receio de perder o controle sobre a segurança de informações estratégicas, entre outras razões, vem sendo quebrada a cada dia porque, entre outros fatores, a área de tecnologia torna-se cada vez mais complexa, e saber acompanhar as novas tecnologias e aplicá-las corretamente, com segurança, é muito caro para as empresas. O resultado disso começou a se tornar visível primeiramente em setores como desenvolvimento de sistemas, helpdesk, suporte técnico e treinamento, mas hoje abrange um leque bem maior, como apontou o estudo do Gartner, e a tendência é ampliar-se ainda mais.
De acordo com o diretor da SLE, "infraestrutura, telecom e fábrica de software são os focos principais, e as empresas de outsourcing em TIC atendem a vários processos organizacionais dos demandantes. Há muita necessidade de atendimento em sistemas da produção, ERP, integração e implantação de sistemas, governança em TI, segurança e telefonia IP, entre outros".
Outro mito que vem sendo derrubado é de que o outsourcing é "coisa para gente grande". Essa percepção já não corresponde à realidade. "Serviços contábeis e de folha de pagamento são terceirizados até em pequenas empresas, por exemplo. O mercado de pequenas e médias empresas crescerá nos próximos anos para prestadores de serviço de outsourcing, principalmente através de software", avalia Luiz Eduardo.
Alinhamento com a estratégia
O executivo explica que em qualquer segmento produtivo e para qualquer porte de empresa é possível gerar benefício com o outsourcing, desde que a expectativa esteja com o mesmo foco nos dois lados. "A falta de alinhamento, como por exemplo, achar que outsourcing é apenas para reduzir custos, descaracteriza a sua principal vantagem, que é a agregação de valor ao negócio, pela especialização do prestador de serviço", argumenta.
Luiz Eduardo explica que as indústrias do ES ofertam commodities e isto faz com que o custo seja monitorado com muito mais ênfase. "Tenho notado que os executivos estão mudando o foco para a geração de receita e aumento de margem; desta forma, o centro de custo vira centro de resultado, e então, quando gastar mais torna-se sinônimo de maior lucro, esta preocupação desaparece"
Já para Couto, da Totvs, o mercado capixaba tem amadurecido muito neste sentido, porque a concorrência e a necessidade de reduzir custos têm levado os empresários a constantemente repensar o seu negócio e a TI é o ‘centro nervoso' desta questão. "Muitos dos nossos clientes têm colocado na ordem do dia os estudos de viabilidade de contratar algum serviço de outsourcing no seu planejamento estratégico, visando a cada vez mais focar no seu negócio. Ao colocar toda a infra-estrutura de TI em nosso data center, por exemplo, eles podem terceirizar não só os servidores, como a atualização e suporte ao banco de dados, versão de sistemas e toda a segurança de software para operação através de internet", aponta.
O caminho para o sucesso
O tempo mostrou que as vantagens da terceirização na área tecnológica são inúmeras, mas é claro que nem tudo é um mar de rosas. Grandes, médias ou pequenas, tanto as empresas demandantes quanto fornecedoras do serviço costumam enfrentar problemas quando falta clareza quanto às expectativas de ambas as partes ou transparência na contratação.
Uma questão inicial é quando a empresa deve começar a pensar em terceirizar sua área tecnológica. Os consultores ouvidos destacaram diferentes aspectos. Para Luiz Eduardo, cada uma tem seu momento e sua particularidade de negócio, mas nenhuma pode prescindir de organização para fazer qualquer tipo de terceirização, nem de acreditar no novo parceiro de negócio. Eduardo Couto, da Totvs, considera que toda vez que o custo da terceirização for menor do que o modelo tradicional, a empresa deve fazer essa avaliação, mas frisa: "a área estratégica da empresa, inclusive a estratégia de TI, jamais deve ser terceirizada; a operação sim, dependendo de cada caso específico".
Na receita de sucesso de cada um a base é a mesma, mas também entram ingredientes diferentes. "Fazer um bom levantamento dos custos atuais na empresa, principalmente dos intangíveis, é um bom começo. Depois disto, avaliar os bons fornecedores do mercado, sua perenidade e histórico de sucesso no segmento em que atua. Por fim, visitar empresas que já fazem uso deste tipo de serviço e comparar os ganhos adquiridos com os ganhos prometidos pelos fornecedores de outsourcing", indica Couto.
Para Luiz Eduardo, "o modelo de terceirização depende dos objetivos estratégicos de cada organização. De maneira geral, quem demanda deve preparar sua estrutura interna e adequar a cultura organizacional antes de terceirizar, para canalizar esforços no sentido de obter o resultado esperado. Isto aumenta consideravelmente as possibilidades de êxito".
Eduardo Couto não vê dificuldades específicas para atender os clientes capixabas. Para ele, as dificuldades são inerentes ao negócio. "Onde o cliente estiver instalado, tem que haver uma boa infra-estrutura de telecomunicação, por exemplo, para que o serviço de outsourcing não seja comprometido".
Já na visão de Luiz Eduardo, "os setores da indústria capixaba estão em processo de consolidação mundial, o que aumenta o nível de exigência dos clientes na contribuição de valor dos fornecedores a seus negócios. Quanto maior a empresa, maior é o tempo para adaptação à mudança, e mais complexo se torna quando falamos de fusões e aquisições. Os fornecedores têm o desafio de antecipar a mudança com flexibilidade, porque em alguns momentos os clientes terão apenas incertezas, mas o negócio não pode parar!"
Ambos acreditam que há ainda um vasto campo a ser explorado no outsourcing em TI, tanto para clientes quanto para fornecedores. "Há espaço, particularmente, para o crescimento na oferta de SaaS (Software as a Service), onde a empresa contrata uma especialização, com a flexibilidade de alternar a demanda do serviço e pagar somente pelo que consome. Neste modelo, é possível atender uma infinidade de processos de negócio. Fornecedores e demandantes de TI estão pensando desta forma", afirma Luiz Eduardo.
Já Couto destaca: "Acredito que este seja um caminho sem volta. Em muito pouco tempo, a maior parte das empresas farão uso de outsourcing na área de TI. O que ainda tem que ser combatido é que o custo é alto. Isto não é mais verdade".
Para ajudar o leitor que pensa em recorrer ao outsourcing na área de TI, ES Brasil resumiu, a seguir, as principais recomendações feitas pelos especialistas consultados na reportagem. Confira, a seguir.
O nome do jogo
Luiz Eduardo, da SLE, esclarece que os pontos a seguir são fundamentais, porque cliente e fornecedor precisam adaptar-se entre si para terem êxito no resultado esperado. "Um problema comum é a criação de SLAs (Service Level Agreement, ou Acordo de Nível de Serviços) complexos demais e/ou com metas inatingíveis. É preciso aprender com o relacionamento e adaptá-las conforme esta maturidade. O nome do jogo é ‘vamos atingir os resultados definidos'". Para ele, os seguintes quesitos devem fazer parte do plano de negócio da terceirização:
- Determinar o objetivo estratégico (por quê).
- Escolher fornecedores organizados (operacional, administrativa e financeiramente) e que tenham relações trabalhistas formais (com quem).
- Definir claramente o limite do que deve ser realizado (o quê).
- Detalhar o processo de interação entre as empresas, selecionar pessoas realmente comprometidas com o objetivo estratégico nos dois lados e determinar indicadores e metas (SLA: Service Level Agreement) desafiadoras, contudo precisos e simples para medir o resultado (como).
Cuidado na escolha dos parceiros
Eduardo Couto, da Totvs, destaca a escolha dos parceiros como fundamental. Eles têm que estar comprometidos com a estratégia do cliente e o cliente tem que ter bons indicadores para medir suas próprias estratégias.
"Estratégia sem indicadores é sonho, e indicadores que não estão associados com a estratégia são perda de tempo", alerta, pois sem isto não há como medir nenhum resultado. "Quando a empresa não tem bons indicadores, dados reais de custos atuais e a visão de aonde quer chegar, a adoção de outsourcing não vai resolver, e atrapalhará ainda mais a gestão", afirma.
Para ele, entre os problemas mais comuns está a visão de algumas empresas de que com a contratação de um serviço de outsourcing, o problema atual que as levou a contratar esse tipo de serviço se resolverá. "E não é bem assim. Gestão e bons indicadores são fundamentais".





