Por que a espiritualidade passou a ocupar tanto espaço nas suas preocupações? O que isso tem a ver com o seu trabalho?
A espiritualidade tem relação direta com o senso de pertencimento, que é o território geográfico ou social ao qual você está filiado. Se o seu território social é apenas a sua família, e você não olha para as comunidades em torno, para as ruas e para os outros, então seu foco está bem restrito. À medida que você vai expandindo esse território geográfico ou social, vai ganhando amplitude de visão. Então, sobre essas duas visões, houve, na verdade, uma ruptura, porque eu vivia num mundo tecnológico, mas já acreditando piamente que não existe outra maneira de a gente conviver, seja em que ambiente for, sem conciliar com a espiritualidade, que é a visão da compaixão. Agora, também houve, por outro lado, uma união, porque eu tentei trazer, da forma mais tranquila e gradativa possível, toda a nuance da gestão tecnológica para uma área extremamente subjetiva, para minimizar as distorções, os desvios, e maximizar o potencial de alcance do impacto (positivo).
E em que a sua formação em Análise de Sistemas contribuiu para o seu desempenho nos campos da responsabilidade social e da comunicação?
Eu entrei na área social conseguindo trazer para ela o germe da gestão, exatamente porque a visão sistêmica e a análise de sistemas me trouxeram esse enfoque: onde é que começa e onde é que termina? Como é que se mede? Que método usar para isso dar certo? Hoje, temos uma metodologia em constante aperfeiçoamento, mas não foi fácil dar origem a ela, nem para nós, nem para as pessoas que lidam conosco - no caso, as ONGs e as comunidades. Até porque, no Brasil, ainda não há a cultura de se medir e muito menos de se demonstrar resultados nessa área.
Metas e os indicadores são fundamentais em gestão, mas normalmente referem-se a aspectos que podem ser numericamente quantificados. Onde fica a parte subjetiva dos projetos sociais nos indicadores que as companhias usam para avaliá-los?
Esse é o grande dilema da Sociologia moderna. Ela incorporou a Estatística, mas não pode perder de vista o Humanismo. Aqui na companhia, trabalhamos com uma metodologia que mistura conceitos, idéias e tecnologias da Fundação Itaú Social, do Instituto Ayrton Senna e do Diálogo Social (uma ONG de São Paulo). Uma atende mais o aspecto quantitativo; a outra mede estima - por exemplo: o quanto mais feliz ficou uma pessoa com a sua comunidade mais desenvolvida? Com um jardim bonito perto da casa dela? Mas é um desafio enorme explorar adequadamente aquilo em que a tecnologia pode ajudar a Sociologia. Por exemplo: eu posso olhar num gráfico de geoprocessamento a distribuição dos projetos no espaço físico, para que municípios e bairros recebam de forma equivalente os investimentos. Posso observar a gestão: quanto estou investindo em projetos de cultura, de saúde, de educação; qual é o IDH, os índices de violência etc. São todos indicadores quantitativos, que me dão respaldo. Agora, eu não posso deixar de olhar o brilho nos olhos das pessoas em ter um evento cultural como o Concerto de Natal, ou de uma criança que nunca viu um palco se apresentar para uma platéia de 40 mil pessoas na praia de Camburi.
Você fala bastante em espiritualidade e compaixão, mas como fazer isso funcionar efetivamente no ambiente interno das empresas? Como integrar essas noções à gestão?
Espiritualidade e compaixão são coisas complicadas de se implementar empresarialmente porque não podem ser metas que venham do alto comando para serem desdobradas, pois é um caminho peculiar de cada pessoa. O que podemos fazer dentro da empresa é inspirá-las a pensarem nisso e mostrar que é importante. Não adianta colocar uma meta: tantos empregados vão ser espirituais daqui a 20 anos. Isso não é uniforme nem homogêneo, a empresa tem um dinamismo muito grande, entra e sai gente. A rotina faz com que as pessoas esqueçam disso. Então, a ideia é ficar lembrando sempre. A sustentabilidade em seis dimensões incorpora a dimensão espiritual, da qual a gente fala tanto quanto na ambiental, na cultural, na econômica etc. Mas, por falar muito na espiritual, ela acaba sendo lembrada mais vezes. E sabe o que é mais interessante? O mundo todo está procurando isso mais ainda agora, depois dessa crise, porque a principal lição dela foi que somos interdependentes. A interdependência das coisas e das pessoas finalmente veio à tona, e de uma forma muito dura. Normalmente eu dava cinco palestras por ano sobre espiritualidade. Este ano, eu já ministrei 12, e em países e fóruns totalmente diferentes - seminários de logística, de sustentabilidade, de engenheiros, de corretores de seguros, de sociólogos, de cientistas...
O que é a sustentabilidade em seis dimensões?
É o econômico interagindo com o ambiental, com o social, o político, o cultural e o espiritual. Você não pode pegar isso e transpor para o PIB. Então, ele não é uma boa medida, porque não mede o mais importante, que é o ser humano. O dinheiro tem que ser bem gerido para proporcionar o mínimo necessário: saneamento básico, educação, saúde. À medida que você começa a avançar na satisfação dessas necessidades básicas, percebe que as pessoas não vivem só disso. "A gente não quer só comida", como diz a música. Então, os alimentos da alma, que o PIB traria, têm que ter um outro indicador.
E como a empresa pode saber se está no caminho certo?
Você não consegue medir o quanto uma empresa é espiritual ou não, e nenhuma delas pode afirmar que é, porque sempre haverá gente em diferentes estágios desse processo e as pessoas precisam ser respeitadas em sua individualidade. Por isso, acho que o primeiro passo é levá-la a olhar para dentro de si. À medida que fazem isso, elas automaticamente se expandem em termos de consciência e conseguem lidar melhor e respeitar o que está fora. O que acontece muito nas empresas é que o econômico, o social e o ambiental param ali; ninguém entende que dentro disso tem toda uma questão humana, que é transversal. Inspirar as pessoas ao autoconhecimento é o melhor caminho para a espiritualidade, que nada tem a ver com religião. É o holismo, a visão do todo. E o que é comum para todo mundo, espiritualmente falando? A compaixão. Até um ateu pode ter compaixão. Então, espiritualidade é a sua capacidade de ver esse todo e mergulhar em você para resgatar a raiz emocional da responsabilidade, que é a compaixão.
Outro aspecto que você reforça muito nas suas palestras é o do funcionamento em redes. Um dos grandes desafios de empresas e instituições é justamente fazer com que as pessoas trabalhem juntas. Como então reunir em uma mesma rede instâncias tão diferentes quanto sociedade, governos e empresas?
Mostrando, pelo uso de meios metodológicos e tecnológicos, com provas, com fatos e dados, que as coisas funcionam melhor em conjunto. Mostrando, com fatos e dados, para aonde o mundo está caminhando; em que isso vai culminar. Qual a empresa que pode operar num mundo inóspito, onde os índices de violência são altos, os índices epidêmicos são altíssimos - veja aí as gripes aviária, suína, a dengue etc? Então, temos que passar a construir mais pontes do que muros. A empresa precisa se descobrir como um organismo vivo, um ente social por excelência. Ela tem que perceber: se funciona melhor num tecido social sadio, por que é que não participa do desenvolvimento dele com ações de comprometimento social, em lugar de responsabilidade social? Comprometimento social é aplicar indicador, metodologia, tecnologia, para ter lá fora a gestão do mundo privado. Não adianta dar dinheiro para uma ONG fazer algo sem saber se aquilo está tendo resultados efetivos, se aquele impacto está realmente ocorrendo, se aquele dinheiro está chegando ao fim a que se destina. Eu posso até, de repente, estar contribuindo com o quarto setor, que é o crime organizado, sem saber! A grande verdade da maioria das empresas é que ninguém quer fazer comprometimento social porque dá trabalho, porque tem que investir tempo, dinheiro, em gente, em metodologia, em tecnologia. Mas os ganhos são incomparáveis, imensuráveis.
Em momentos de crise, é comum e até recomendável reavaliar procedimentos e critérios. A crise mundial provocou algum tipo de reavaliação nas políticas social ou ambiental da ArcelorMittal Tubarão?
Em termos orçamentários, temos buscado maximizar os recursos que temos. A tecnologia, a metodologia e a gestão permitem que com pouco você consiga fazer muito, e num momento de crise continue fazendo a mesma coisa. Tanto, que não houve corte no investimento na área social, que se manteve em torno de 10 milhões de reais este ano. E nós temos passado para os parceiros e projetos essa mesma ideia: que vamos manter esse recurso, mas que temos que fazer mais com ele. Não porque a gente queira mais e mais, mas porque tem mais gente que precisa de apoio. Você não precisa de muito dinheiro para fazer o social funcionar. A crise também trouxe essa lição para a gente, que se pode otimizar o investimento com o recurso da metodologia, tecnologia e gestão adequada. Hoje, conseguimos atender com a mesma verba um público ainda maior.





