Mas foi mesmo com a ajuda da TV que o jornalista ampliou o debate sobre a questão da gestão ambiental. Desde 1996, Trigueiro atua como repórter e apresentador do "Jornal das Dez", da Globo News. Expert na temática ambiental, em 2003, com a série "Água: o desafio do século 21", ele recebeu o Prêmio Imprensa Embratel de Televisão e o Prêmio Ethos - Responsabilidade Social, na categoria Televisão. Nesta entrevista, o jornalista falou à revista ES Brasil sobre a importante posição do Brasil no ranking das superpotências ambientais e ainda orientou o povo capixaba sobre como conviver de forma saudável com a recente explosão industrial no estado.
Sustentabilidade tem sido uma palavra de ordem em instituições públicas e privadas no Brasil. Em sua opinião, isso é algum modismo ou algo com que as pessoas e governos têm realmente se preocupado?
Não entendo que seja modismo, porque moda é algo que dá e passa, que faz sentido numa estação do ano e que na outra cai em desuso. Não acho que essa questão seja vista assim. Nos meios políticos, na gestão pública e também no setor privado, há um entendimento de que não dá para ignorar a questão ambiental, e isso é muito fácil de demonstrar. Por exemplo, basta observar como se estrutura uma campanha em ano eleitoral. Vê-se a retórica dos candidatos, cada vez mais consistentes na hora de se comprometer com relação ao tema. Basta recordar o número de votos [quase 20 milhões] que a candidata mais comprometida com ele [Marina Silva] arrebanhou nas últimas eleições presidenciais. No setor privado, é possível observar um protagonismo ostensivo muito além do que a legislação ambiental preconiza e da demanda de relatórios ambientais anuais. Isso é visto especialmente entre as empresas que se preocupam em adotar o modelo Global Reporting Initiative (GRI), que é bastante conceituado em todo o mundo para certificar uma forma de medir o que você faz, como você faz e que resultados alcança na sua gestão ambiental. Tenho a percepção de que estamos vivendo um momento muito rico de transição para um mundo em que esse assunto não é periférico.
Como definir "sustentabilidade" em termos empresariais? Ela prescinde necessariamente de ações "ecologicamente corretas"?
Existem várias definições. Mas, num discurso empresarial, sustentabilidade é sinônimo de redução do desperdício e internalização dos custos, ou seja, aquilo que era entendido na economia clássica como "externalidade" muda. Você gera um impacto, mas esse não pode ser embutido nos custos da sua empresa. É aquele impacto que alguém, provavelmente o poder público, vai ter que remediar ou resolver. Essa visão mudou. O empresário, agora de olho na questão da sustentabilidade, começa a internalizar custos que antes não eram considerados da empresa. Há ainda a otimização do ganho, quer dizer, à medida que você reduz o desperdício, você tem uma compensação na maior taxa de retorno do capital investido. Há mais eficiência e esse é um dos sinônimos da sustentabilidade. Além disso, os empresários que se propõe a manter uma gestão ambiental responsável respeitam os limites ou a capacidade de suporte do ecossistema que provê determinada empresa de matéria-prima e energia. Qualquer setor produtivo depende de água. Antigamente não havia o menor cuidado em relação à fonte ou ao manancial. Hoje em dia, é importante para que seu negócio seja de longo prazo que você tenha essa preocupação, reciclando água ou captando água da chuva, por exemplo. Quem ignora esses limites está fadado ao fracasso.
Essas ações podem ser ensinadas, a partir de um processo de conscientização? Como ensinar a uma nação a ter uma nova mentalidade que leva em conta esses valores?
Primeiro, reconhecendo, no caso do Brasil, que o país é absolutamente desigual. Em nosso caso, essas estratégias não podem ser uniformes. Portanto, quando falamos de sustentabilidade no interior do Pará não podemos achar que se trata da mesma coisa na Zona Sul do Rio. Dei esses dois exemplos para que percebamos que são diferentes estratégias de sensibilização. Claro que isso começa na escola, sem dúvida alguma. É preciso sensibilizar a comunidade, entendendo o impacto de certas rotinas dentro da escola, como em relação a resíduos sólidos, ao consumo de água e energia, à compra de material escolar ou do mobiliário da escola, às formas criativas de aproveitar a água do telhado ou o sol que incide sobre o mesmo telhado, ao reaproveitamento de materiais que, num primeiro momento, são descartados etc. A escola é um espaço mágico da formatação de uma nova leitura da realidade. Isso deveria continuar em casa e, se os pais não têm essa visão, seriam instigados pelos filhos. Essa questão tem que ser abordada em absolutamente todas as disciplinas universitárias, todas as áreas de conhecimento, desde Economia, Jornalismo, Arquitetura, Direito etc. Nenhuma dessas disciplinas poderia se omitir em abordar esse mundo que mudou.
A sociedade brasileira hoje está mais educada em termos ambientais do que no passado recente?
O Brasil mudou. Não tanto quanto gostaríamos, mas há uma mudança na gestão pública, no setor privado, nas ONGs, nas igrejas, nas universidades. Mas o mais importante é que o Brasil já se percebe neste início do século XXI como uma potência ambiental e estamos começando a empregar expressões muito inteligentes para educar o nosso olhar em relação a esse patrimônio mega biodiverso. Estamos falando de capital ecológico, pegada de carbono, que é a preocupação quanto à quantidade de dióxido de carbono (CO²) que produzimos diariamente com uma ida ao trabalho de carro, um movimento do interruptor de luz e um voo para fora da cidade. Tudo isso utiliza combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás. Há ainda a preocupação com a pegada hídrica, cuja metodologia de cálculo foi criada com o objetivo de avançar na conservação e gestão da água doce. Também estamos começando a refazer as contas em relação à conveniência de certos projetos ou empreendimentos que, até há algum tempo, eram considerados estratégicos para o desenvolvimento e que hoje já são olhados de outra forma. Não está tão fácil falar de desenvolvimento quanto era num passado não tão distante. Hoje, você tem que qualificar esse desenvolvimento. No Brasil ele não vem mais a qualquer preço.
Como o Brasil está em relação ao tema, comparativamente com outras nações consideradas de primeiro mundo?
O Brasil já é uma super potência na área ambiental. Estamos em primeiro lugar no mundo em relação aos países que têm maior quantidade de solo fértil sem que haja necessidade de desmatamento. Também estamos em primeiro lugar no que se refere à quantidade de água doce, superficial de rio, como na bacia do Rio Amazonas, e subterrânea, como nos aquíferos Guarani e Amazônia, dois dos maiores do mundo. Somos campeões mundiais de biodiversidade, ou seja, temos a Amazônia, o Pantanal, a caatinga, a Mata Atlântica e o pampa. São biomas com espécies que só ocorrem nessas áreas. Somos capazes de gerar produtos a partir da tecnologia aplicada aos recursos da natureza, graças à biotecnologia. Isso é um potencial fantástico. Estamos ao lado de países da União Europeia que hoje possuem sistemas de gestão muito avançados em relação à promoção de desenvolvimento sustentável. A Califórnia, nos Estados Unidos, pode servir de exemplos para o Brasil em muitos aspectos. Mas, claro, lá existe muito mais condescendência com os grandes poluidores em relação ao que ocorre na Europa.
Há vontade política em promover a chamada "economia verde" no Brasil? As legislações ambientais colaboram para isso?
Há, com certeza. A legislação brasileira é uma das mais avançadas do mundo na questão ambiental. Ocorre que temos questões do tipo: as autoridades aplicam uma multa, mas o infrator vai recorrer na Justiça. O rito processual nem sempre dá efetividade a essa lei. Em geral, acaba beneficiando quem pode pagar bons advogados, que fazem malabarismos com essa legislação. Então, recai sobre o Brasil a reputação de país que consegue punir apenas os pobres que desrespeitam o meio ambiente. O ribeirinho que desmata para plantar feijão é punido. Já aquele que é dono de uma mega siderúrgica que desrespeita o que foi protocolado no licenciamento para que a empresa funcionasse vai pagar uma multa pequena, proporcionalmente à receita que ele tem no seu negócio.
No Espírito Santo, especificamente, temos vivido um ciclo econômico de instalação de grandes projetos industriais. Como assegurar que eles não causem degradação ambiental?
Isto vale para o Espírito Santo e todos os estados do Brasil. Depois de 20 anos tramitando no Congresso Nacional, o país tem uma Lei Federal sobre resíduos sólidos urbanos. É uma lei correta, revolucionária, que estabelece uma penalidade maior para quem for displicente com seus resíduos e estabelece responsabilidade sobre logística reversa, ou seja, quem lança seu produto no mercado é responsável pela destinação final daquilo quando virar lixo. É o caso de uma fábrica de refrigerante, responsável pelo casco ou embalagem, ou de uma fábrica de sorvete, que fica responsável pelo palito, ou mesmo de uma fábrica de pasta de dentes, que tem responsabilidade pela caixinha depois de descartada. As responsabilidades são compartilhadas, mas a empresa deixa de ser inimputável. Sugiro que as pessoas tenham atenção aos novos princípios que vão nortear a questão dos resíduos sólidos no Brasil.
Mas já há uma preocupação quanto à degradação de algumas regiões.
No caso do povo capixaba, se a economia vai bem, se há mais empresas se instalando no estado, se há mais empregos, haverá, com certeza, maior consumo e geração de mais lixo - é importante não perder de vista essa nova política. É só fazer com que as normas sejam cumpridas. O povo tem esse dever. O crescimento econômico não é incompatível com a questão ambiental se houver, por parte de todos os atores envolvidos nesse cenário, compromisso. Ou seja, um processo de licenciamento que seja rigoroso não permitirá que qualquer empresa se instale em qualquer lugar, pois ela pode detonar o capital natural da região, prejudicando de forma irreversível sua vocação. E ponto final, mesmo que o assunto seja petróleo. Não tem almoço grátis. Para viabilizar a produção da camada pré-sal você vai ter que instalar bases da Petrobras no continente para viabilizar essa produção. Com isso, nas áreas costeiras mais próximas dessas plataformas têm de ser instaladas refinarias, gasodutos, oleodutos ou bases operacionais. Não há como fugir disso. Quem vai dizer: "Não queremos a Petrobras aqui!"? O Espírito Santo não pode abrir mão dessa receita, mas pode ser absolutamente rigoroso na aplicação da legislação ambiental e no repasse dos royalties nas proporções que já estão estabelecidas em lei. É justo que os estados produtores recebam uma parcela maior de royalties.
Quais são suas expectativas com relação à Rio+20, em 2012?
A pauta está sendo construída. Existe muita expectativa de que haja uma boa presença dos chefes de estado no Rio de Janeiro, mas isso não é certo, já que o governo brasileiro não quer que aconteça aqui uma reunião que gere mais frustração do que resultado. A ONU, por sua vez, não quer deixar de aproveitar a data, já que serão completados 20 anos da Eco 92, para discutir os novos desafios do desenvolvimento sustentável, que é a preocupação. Mas o que se sabe é que não será uma reunião deliberativa. Não haverá tratados à mesa nem a pretensão de discutir acordos com prazos e metas. Então, o risco de ser uma terapia de grupo é grande.





